Metafórica

(Laís Moura)

Nunca me esqueço do dia em que meu pai me chamou à cozinha, fedendo a fritura e lição de moral. Ele estendeu uma cadeira em frente a sua, da qual eu precisava pular para sentar. Apontou para um copo com água em cima da toalha rendada de mesa e disse:
- Supondo que isso seja seu coração. Como ele está?
- Está puro. - Disse por que sabia que era aquilo que ele queria ouvir. Na verdade aquilo para mim não passava de uma vontade súbita minha de matar minha sede.
- Certo, bom. Está puro. - Ele deu uma pausa e pegou um pouco de terra dentro de um pote ao lado do copo e, levando-o à beira deste, despejou o conteúdo todo dentro. Vi aos poucos a terra descer e se instalar lá no fundo.
- E agora? Como seu coração está?
- Sujo.
- Só sujo?
- Doente.
- Certo. Doente. O que para você representa esta terra?
- Coisas ruins. Palavras más.
- Hum. E o que eu represento?
Parei para pensar. Aquela era uma pergunta difícil.
- Os outros.
- Que outros?
- Todo mundo.
- Isso. Todo mundo. - Daí ele mergulhou uma colher e tentou ao máximo dissolver a terra na água.
- E agora? O que essa colher representa?
Dei uma pausa, dessa vez mais longa.
- Responda! O que representa?
- Eu não sei...
- Como não sabe?! Uma menininha de 7 anos já deveria saber.
- Acho que... Acho que eu mesma.
- E por que seria você mesma?
- Por que só dependeria de mim manter a água suja ou tirar a sujeira dela.
- A água?! Mas estamos falando do coração!
- Mas foi isso que eu quis dizer!
- Ótimo, isso mesmo. Só seja mais clara da próxima vez.
Baixei os olhos e fitei minhas mãos úmidas de nervosismo.
- Conclusão...?
Continuei a fitar minhas mãos, com um medo esmagador de errar.
- Preciso ter cuidado com que penso, falo e escuto.
- Ahã. E filtrar tudo isso.
- É.
- Ok. Liberada. - Me deu um abraço frio e com mais frieza ainda disse: Amo você.
Eu nunca falava nada, muito menos que amava ele também. E crescendo assim, me tornei como o título diz.

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