Arrependimentos

(Bárbara Suzart e Laís Moura)

Já fazia três anos que o meu marido Rodrigo tinha falecido. E já fazia três anos que a situação lá em casa estava péssima. Quer dizer, péssima é apelido. Estava um caos. Eu não me dava muito bem com minha filha, Graziele, que estava fazendo curso de arquitetura. Eu pegava no pé dela, e não vou mentir que gritava com ela quase todo dia por causa dos estudos. Ela até estudava, mas ficava a maioria do dia na televisão, ou saía com o namorado, Lucas. O que eu mais temia era esse tal de Lucas.Graziele não estava feliz - isso era claro - desde que começou a namorar com ele. Teve um dia que ela apareceu com um olho roxo, chorando, e disse que tinha sido assaltada. - E Lucas?Onde estava nessa hora?
- É, ele já tinha chegado em casa.
- Mas ele não ia te deixar em casa?
- Ele... ele tinha um compromisso, aí ele teve que sair mais cedo.
- Hum...
- O que foi que você tá com essa cara?
- Sei bem esse compromisso.
- O QUE É MINHA MÃE? O NAMORADO É MEU, VOCÊ NEM CONHECE ELE!
-Tá aí o problema: EU NÃO CONHEÇO.
Ela foi pro quarto e lá ficou até o dia seguinte.
- Bom dia. - Disse, ao ela sair do quarto.
Ela pegou uma maçã na mesa e saiu de casa, no silêncio.
O silêncio era o melhor amigo dela, isso eu tinha certeza.
Um dia, cheguei em casa e simplesmente estava ela lá, vendo televisão, séria. Reclamei, chateada:
- GRAZIELE! VOCÊ DEVERIA ESTAR ESTUDANDO! Não acredito nisso! Você não se preocupa com seu futuro não? Vá já pro seu...
- PARA, MÃE! QUE SACO! - ela me interrompeu.
Ela fez algo que nunca fizera antes: começou a me bater, me jogou no chão e começou a me chutar. Eu poderia me defender, mas estava tão assustada que acabei ficando parada, chorando. Depois ela foi para o seu quarto, estressada. Eu estava em estado de pânico, não conseguia me movimentar. E quando consegui recuperar minhas forças, fui para o quarto dela tentar conversar e pedir desculpas. Mas ela não queria saber, só ficou gritando e me expulsando do seu quarto.
Fiquei semanas tentando me dar bem com ela, mas ela sempre me ignorava. Até que chegou um dia que abri a porta do quarto dela para tentar conversar com ela, de novo. Mas acabei encontrando ela caída no chão e, do seu lado, estavam caixas de remédios e algumas drogas.Dentre eles, estavam morfina, maconha e heroína. Me desesperei e chamei a ambulância rapidamente.
No hospital, eu aguardava nervosa, o resultado do médico. De repente, ele chegou com uma cara não muito triste, mas estava sério.
- Então, doutor? - disse ansiosa - O que aconteceu com minha filha?
- Infelizmente ela perdeu o bebê, pelo excesso de remédios...
Eu entrei em pânico.
- O QUÊ?! Ela estava grávida e nem me falou?! Não acredito! Parecia que ela achava que tinha medo da minha reação! Mas e o pai do bebê? Lucas? Isso mesmo, onde está ele?
- Senhora, você precisa se acalmar...
- Não acredito! - comecei a chorar. Foi por isso que ela ficava estressada, infeliz. Esse tal de Lucas nunca iria fazer bem a minha filha, eu sempre soube...
Onde estava o cretino numa hora dessas?
Chegou um enfermeiro, chamando o médico. Pelo jeito, ela havia piorado.
Fui ver minha filha, que estava toda entubada e com o rosto inchado.
- Filha?
- Mãe...Mãe...
- Shii, não precisa falar nada...
- Desculpa mãe...
Ela fechou os olhos. Quando eu estava saindo, ela disse:
- Você não pode olhar diretamente para o sol, mas pode sempre admirar a beleza da lua.
Só sei que ela não conseguiu resistir. Faleceu. Perdi a minha razão de viver e até agora estou numa situação difícil da minha vida. Eu nem sequer pude dizer um adeus.Nem sequer pude tratá-la como minha filha.

Comentários

graziele disse…
Eu adorei o contooo' ;D
Beijos continue escrevendo mas e mas contos

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